Como um pastor pode amar a ciência?
Estar na sala de imprensa do Kennedy Space Center, na Flórida, com uma credencial da NASA no peito e a bandeira do Brasil silenciosamente representada na minha presença, foi uma daquelas experiências que nos obrigam a recalibrar o tamanho da nossa própria existência diante do Criador.
Ver o foguete cortar a atmosfera para posicionar no espaço o telescópio espacial Nancy Grace Roman, um observatório projetado para mapear bilhões de galáxias e desvendar mistérios da matéria escura, não foi apenas um marco jornalístico na minha carreira. Foi um encontro genuíno entre a mais avançada engenharia humana e a reverência espiritual.
A ciência como ferramenta de contemplação
O salmista Davi escreveu há milênios: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Salmos 19:1).
Naquela contagem regressiva, cercado por cientistas, engenheiros e correspondentes do mundo inteiro, ficou evidente que a ciência não compete com a fé cristã; pelo contrário, ela fornece a linguagem e a resolução com as quais podemos apreciar a vastidão da criação.
O telescópio Nancy Roman foi construído para enxergar um campo de visão cem vezes maior que o do Hubble, capturando a imensidão do cosmos em detalhes nunca vistos.
Cada lente polida, cada cálculo de trajetória e cada sensor infravermelho refletem a inteligência que Deus concedeu ao ser humano para explorar a ordem do universo que Ele mesmo estabeleceu.
Um testemunho entre os repórteres
Nos intervalos das transmissões, em meio ao vai e vem de computadores, câmeras e xícaras de café, as conversas de bastidores inevitavelmente foram além do roteiro técnico. Quando alguns colegas de bancada descobriram que eu era pastor, a surpresa foi imediata no rosto de alguns.
Um deles virou-se para mim e perguntou, com genuína curiosidade: “Como é possível um pastor amar tanto a ciência?”
A pergunta abriu espaço para um testemunho simples, mas profundo.

Expliquei que não vejo conflito algum, porque amar a ciência é, em última análise, maravilhar-se com os mecanismos da própria criação. Estudar o cosmos não diminui a minha fé; apenas amplia a minha percepção sobre o Autor de tudo.
A investigação científica não ameaça a Deus, ela revela a complexidade e a elegância com que Ele orquestrou a realidade.
Naquele instante, a sala de imprensa virou também um campo de diálogo sobre propósito, origem e reverência.
A fragilidade humana e a fidelidade divina
Quando os motores rugiram e o chão sob nossos pés tremeu, o silêncio que se seguiu entre os jornalistas não era técnico, era de assombro.
Como único repórter brasileiro presente naquela bancada, a sensação de pequenez foi inevitável. Em meio a bilhões de galáxias que aquele telescópio irá fotografar, o que é a Terra? O que somos nós?
A resposta do Evangelho é o que transforma o assombro cósmico em esperança: o mesmo Deus que sustenta as galáxias pela palavra do Seu poder conhece cada um de nós pelo nome.
Cobrir o lançamento do Nancy Roman foi um lembrete vívido de que a nossa fé não teme a profundidade do espaço, pois quanto mais longe a humanidade consegue enxergar, mais evidente se torna a grandeza Daquele que tudo criou.